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Alex Van Parys

Protótipo · em construção

Observatório da Mantiqueira

Durante um tempo tratei como projetos separados coisas que, olhando melhor, eram jeitos diferentes de observar a mesma serra.

Um olha para o céu, agora. Outro olha para a paisagem ao longo de quarenta anos. E há o sítio onde moro, o pedaço de chão onde dá para ver de perto o que a ocupação faz com a água, com a mata e com o resto.

Juntos, formam um observatório. Não uma instituição: uma investigação pessoal e independente sobre a Serra da Mantiqueira, que cresce no ritmo em que as perguntas aparecem.

Uma pergunta que atravessa os três

O radar mais próximo do sítio fica a uns 250 quilômetros. Àquela distância, o feixe passa alto e perde a chuva rasa que se forma rente à serra: às vezes o Araiva simplesmente não consegue dizer se está chovendo aqui agora.

Isso, mais do que uma falha, é uma pergunta: como observar direito a chuva numa paisagem de montanha que a infraestrutura meteorológica convencional enxerga mal? Pluviômetros próprios, estações pequenas, câmeras, sensores improvisados. Quando alguma dessas coisas começar a medir, ganha lugar aqui.

O símbolo

O Cathartes aura, o urubu-de-cabeça-vermelha, foi escolhido como símbolo do Observatório da Mantiqueira por sua relação íntima com a atmosfera e a paisagem. Mestre do voo planado, ele percorre grandes distâncias quase sem bater as asas, lendo térmicas, ventos e o relevo para se manter no ar.

Visto de baixo, ele observa a serra por inteiro. É justamente essa combinação de atmosfera, território e visão de conjunto que inspira o Observatório: compreender a Mantiqueira não por um único dado ou ponto de vista, mas pelas relações entre clima, relevo, água, vegetação, fauna e ocupação humana.

E há também algo de apropriado em escolher um urubu. Não uma ave heráldica ou majestosa por convenção, mas uma espécie comum, discreta e profundamente adaptada ao lugar — um observador silencioso da paisagem.